Por trás de cada voo do Gripen, existe um processo industrial extremamente preciso que começa muito antes da aeronave ganhar vida nos céus.
O programa Gripen da Força Aérea Brasileira representa muito mais do que a simples aquisição de uma nova aeronave de combate. Ele simboliza uma mudança importante na forma como o Brasil participa de projetos estratégicos de defesa, deixando de ser apenas comprador para se tornar também parceiro no desenvolvimento, na produção e na absorção de tecnologia.

A escolha do Gripen, fabricado pela sueca Saab, ocorreu dentro do programa F-X2, criado para modernizar a aviação de caça da FAB. O contrato brasileiro prevê 36 aeronaves, sendo 28 Gripen E, monopostos, e 8 Gripen F, bipostos. A grande diferença desse programa está no pacote de transferência de tecnologia e na participação direta da indústria nacional, especialmente da Embraer, em etapas importantes do desenvolvimento e da produção.
Em 2023, Saab e Embraer inauguraram em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, a primeira linha de produção do Gripen E fora da Suécia. Esse marco colocou o Brasil em uma posição rara na América Latina: a de país com capacidade industrial para participar da fabricação de um caça supersônico moderno. A linha brasileira recebe aeroestruturas produzidas tanto na Suécia quanto no Brasil, realiza a montagem final, testes funcionais e voos de produção antes da entrega à Força Aérea Brasileira.
Outro avanço importante aconteceu em 2026, com a apresentação do primeiro Gripen E produzido no Brasil e, pouco depois, com o rollout do primeiro Gripen F em Linköping, na Suécia. A versão F, biposto, foi desenvolvida em parceria com a indústria brasileira e tem papel essencial no treinamento avançado de pilotos, além de manter capacidade operacional. Na prática, ela permite que a FAB prepare seus pilotos em um ambiente muito mais próximo da realidade de combate moderno, com dois tripulantes e sistemas equivalentes aos da versão monoposto.

Quando se fala em custo, o Gripen brasileiro costuma chamar atenção. O valor total do contrato original foi anunciado pela Saab em aproximadamente 39,3 bilhões de coroas suecas, incluindo desenvolvimento, produção das aeronaves, sistemas relacionados e cooperação industrial. Por isso, não é correto olhar apenas para o “preço por aeronave” de forma isolada. Diferente de uma compra simples de prateleira, o contrato brasileiro inclui transferência de tecnologia, desenvolvimento conjunto, formação de profissionais, instalação de capacidade produtiva local e participação da indústria nacional.
Essa é uma diferença importante em relação a comparações diretas com outros caças, como F-16, Rafale, F/A-18 ou F-35. Cada programa possui escopo, configuração, armamentos, suporte logístico, treinamento, manutenção, pacote industrial e condições comerciais diferentes. Assim, embora comparações de valores sejam úteis para dar dimensão ao investimento, elas não contam toda a história.
No caso brasileiro, o Gripen deve ser entendido como uma plataforma de soberania tecnológica. O programa fortalece a Embraer, amplia a qualificação da cadeia aeroespacial nacional e cria conhecimento que pode ser aplicado em futuros projetos civis e militares. Além disso, a produção local abre caminho para que o Brasil participe de novas oportunidades internacionais ligadas ao Gripen, especialmente em países que também venham a escolher a aeronave.
O Gripen E/F também chega em um momento em que a FAB busca substituir aeronaves mais antigas e operar um caça moderno, conectado e preparado para o combate aéreo contemporâneo. Com sensores avançados, arquitetura aberta e capacidade de integração com diferentes sistemas, o Gripen foi pensado para evoluir ao longo do tempo, recebendo atualizações de software, novos armamentos e melhorias operacionais conforme as necessidades da Força Aérea.
Confira todas as etapas da linha de montagem do caça Gripen:












