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Charlie Duke: do caça à Lua, em mensagem exclusiva ao Aero The Times

Em mensagem exclusiva gravada em agosto de 2026, o piloto do módulo lunar da Apollo 16 escolheu não falar do pouso. Preferiu contar como um jovem reprovado na aviação naval virou o décimo homem a caminhar na superfície lunar.

Há um detalhe revelador na mensagem de 80 segundos que o General Charles Moss Duke Jr. gravou para os leitores do Aero The Times. Ele tinha à disposição uma das histórias mais extraordinárias do século XX, três dias caminhando sobre a Lua, e escolheu falar de outra coisa. Escolheu falar de aviação.

“Saudações a todos os meus amigos brasileiros. Aqui é o astronauta Charlie Duke. Um breve resumo da minha carreira”, começa. O que vem depois não é um relato sobre Descartes ou sobre o rover lunar. É a trajetória de um piloto: Academia Naval, uma reprovação, caças, Alemanha, MIT, escola de pilotos de teste. A Lua aparece apenas como consequência, quase como nota de rodapé.

Aos 90 anos, e como um dos quatro homens vivos que pisaram em outro corpo celeste, Duke parece ter clareza sobre o que realmente sustentou sua carreira. E o recorte que ele próprio propôs é o que estrutura este texto.

Annapolis e a porta que não abriu

Duke nasceu em Charlotte, na Carolina do Norte, em 3 de outubro de 1935. Formou-se na Academia Naval dos Estados Unidos em 1957, com bacharelado em Ciências Navais, e ali descobriu o que queria fazer da vida.

“Foi lá que me apaixonei por aviões, e quis ser piloto”, conta na gravação. “Não fui qualificado para a aviação naval, mas a Força Aérea me aceitou.”

A frase passa rápido, mas contém o primeiro desvio de rota de uma sequência inteira deles. Segundo o próprio Duke, a reprovação na aviação naval o empurrou para a United States Air Force, e foi como oficial da USAF, não da Marinha, que ele construiu tudo o que veio depois. Não há documentação independente sobre o motivo específico da reprovação, e o episódio permanece como testemunho pessoal do astronauta.

Foto: U.S. Naval Academy, Nimitz Library via archive.og

Os anos de caça, do Texas a Ramstein

A formação de piloto começou em Spence Air Base, na Geórgia, com a instrução primária. Seguiu para Webb Air Force Base, no Texas, onde concluiu a instrução básica em 1958 como distinguished graduate. O treinamento avançado veio em Moody AFB, novamente na Geórgia, no F-86 Sabre, e novamente com distinção.

526th Fighter-Interceptor Squadron North American F-86D Sabre 51-6217 Foto: USAF via Wikimedia Commons
F-86D Sabre Cockpit – Foto: USAF by Ty Greenlees via nationalmuseum.af.mil
F-86L Sabre – Foto: Georgia National Guard History via Flickr

Dali foi para a linha de frente da Guerra Fria. Duke serviu três anos no 526th Fighter Interceptor Squadron, em Ramstein, na Alemanha Ocidental, na função mais direta e menos glamourosa da aviação de caça daquele período: interceptação.

Pilotos de F-102 posam em frente à instalação de alerta na Base Aérea de Ramstein em 1961 – Foto: USAF via thejivebombers.com
Convair F-102A-65-CO Delta Dagge – 56-1211 do 526th Fighter Interceptor Squadron – Foto: USAF via Wikimedia Commons

Vale dimensionar o que isso significava no início dos anos 1960. Um piloto de interceptação baseado na Alemanha Ocidental operava a poucos minutos de voo da fronteira com o bloco soviético, em regime de alerta, com a expectativa concreta de que a decolagem seguinte pudesse não ser um exercício. A margem de erro era mínima e o julgamento tinha que ser instantâneo. É o tipo de rotina que forma piloto de verdade.

MIT e Edwards, o funil da NASA

Em 1964, Duke concluiu o mestrado em Aeronáutica e Astronáutica no Massachusetts Institute of Technology. Na sequência, entrou na Aerospace Research Pilot School, em Edwards AFB, na Califórnia.

Este é o ponto de virada da história, ainda que ele mesmo não o apresente assim. A ARPS era, naquele momento, o principal funil de recrutamento de astronautas dos Estados Unidos. Passar por Edwards significava estar no lugar certo, na hora certa, com a qualificação certa.

Duke formou-se em setembro de 1965 e permaneceu na escola como instrutor, ensinando sistemas de controle e voando F-101 Voodoo, F-104 Starfighter e T-33 Shooting Star. Era exatamente o que estava fazendo quando recebeu a notícia da seleção.

Classe 64-C da ARPS. Duke está na última fila, o terceiro da esquerda. – Foto: USAF via Wikimedia Commons
Lockheed F-104A-10-LO (SN 56-0758) – Foto: USAF via Wikimedia Commons
McDonnell F-101A-1-MC Voodoo (53-2418) no leito do lago em Edwards – Foto: USAF via Wikimedia Commons
Lockheed T-33A Shooting Star – Foto: USAF via nationalmuseum.af.mil

Um entre dezenove

“Vi uma matéria dizendo que a NASA estava procurando mais astronautas. Me candidatei e fui selecionado para um grupo de 19”, resume na mensagem.

Duke integrou o Grupo 5 de astronautas da NASA, anunciado em abril de 1966, o chamado Original 19. Foi o grupo que forneceria boa parte das tripulações das últimas missões Apollo e, mais tarde, dos primeiros voos do ônibus espacial.

Grupo 5 – Os astronautas em 1966. Em pé: Swigert, Pogue, Evans, Weitz, Irwin, Carr, Roosa, Worden, Mattingly e Lousma. Sentados: Givens, Mitchell, Duke, Lind, Haise, Engle, Brand, Bull e McCandless – Foto: NASA via Wikimedia Commons
Foto: NASA

A voz de Houston e a rubéola que mudou uma tripulação

Antes de voar, Duke acumulou duas participações que a maior parte das matérias sobre ele costuma ignorar, e que dizem muito sobre sua posição dentro do programa.

Ele integrou a tripulação de apoio da Apollo 10 e, em 1969, foi o CAPCOM da Apollo 11. Ou seja, foi a voz de Houston durante a descida do módulo lunar Eagle, na primeira alunissagem tripulada da história. Quem ouve as gravações originais reconhece o sotaque sulista respondendo à confirmação de Neil Armstrong, num tom em que o alívio da sala de controle é audível.

Duke, Lovell e Haise no Centro Espacial Johnson, em Houston, Texas, onde ocorreu a missão Apollo 11 – Foto: NASA via Wikimedia Commons

Na Apollo 13, Duke era reserva do piloto do módulo lunar. Pouco antes do lançamento, contraiu rubéola e expôs a tripulação principal. Como Ken Mattingly não tinha imunidade, foi substituído por Jack Swigert. A decisão, tomada às pressas, entrou para a história do programa espacial. Dois anos depois, Mattingly voaria justamente com Duke, na Apollo 16. Duke ainda serviria como reserva do piloto do módulo lunar da Apollo 17, em dezembro de 1972.

Descartes

A Apollo 16 foi lançada em 16 de abril de 1972, com John Young no comando, Mattingly como piloto do módulo de comando Casper e Duke como piloto do módulo lunar Orion.

Mattingly, John Young and Duke – Foto: NASA via Flickr
Foto: NASA via Flickr

Young e Duke pousaram nas Cayley Plains, na acidentada região montanhosa de Descartes, no primeiro esforço realmente científico de investigar as terras altas lunares. A permanência na superfície somou 71 horas e 2 minutos, recorde do programa até então. Em três excursões distribuídas por três dias, a dupla percorreu cerca de 27 quilômetros com o rover lunar e coletou aproximadamente 96 quilos de rocha e solo.

Aos 36 anos e 201 dias, Charlie Duke tornou-se o décimo e mais jovem ser humano a caminhar na Lua. A missão encerrou-se em 27 de abril de 1972, com 265 horas de voo espacial e cerca de 21 horas de atividade extraveicular acumuladas.

O astronauta Charles M. Duke Jr., piloto do módulo lunar da Apollo 16, saúda a bandeira dos Estados Unidos. Foto: NASA via Flickr
O astronauta Charles M. Duke Jr., piloto do módulo lunar, é fotografado coletando amostras lunares na Estação nº 1. Foto: NASA via Flickr.
O retrato da família de Charlie Duke foi deixado na superfície da Lua. A Cratera Cat, na Estação 14, recebeu esse nome em homenagem aos seus filhos, Charles e Tom. A Cratera Dot, na Estação 16, recebeu esse nome em homenagem à sua esposa.
A região de Descartes, local do pouso da Apollo 16, fotografada de Jundiaí, São Paulo, em 26 de Novembro de 2025, com telescópio dobsoniano de 203 mm. Foto: Lucas Cruz Barcat

Duke deixou o programa de astronautas em Dezembro de 1975 para atuar na iniciativa privada, ingressou na Reserva da Força Aérea e foi promovido a general de brigada em 1979. Encerrou a carreira militar em Junho de 1986, com 4.147 horas de voo registradas, sendo 3.632 delas em jatos.

Antenas ligadas

O que chama atenção na trajetória de Duke é como cada obstáculo funcionou como requisito da etapa seguinte. A recusa da Marinha o levou à Força Aérea. O caça o levou ao MIT. O MIT o levou a Edwards. Edwards o levou à NASA. Nenhuma dessas etapas foi planejada como degrau rumo à Lua, porque, quando ele começou, a Lua não era um destino disponível.

Talvez por isso ele encerre a mensagem aos leitores brasileiros do jeito que encerra:

“Então mantenham as antenas ligadas. Você nunca sabe o que vai acontecer na sua carreira. Estejam preparados para qualquer eventualidade. Espero que isso sirva de inspiração para vocês. Tudo de bom. Até logo.”

A expressão “keep your antennas up” é gíria de origem militar norte-americana e significa manter-se atento, de olho aberto. A tradução literal foi preservada porque a imagem funciona igualmente bem em português, e porque é assim que ele escolheu se despedir.

Para o leitor brasileiro que sonha com uma carreira na aviação, e que talvez esteja lidando agora com a própria porta que não abriu, o conselho vem de quem já testou a hipótese até o fim.

Acompanhe o Aero The Times

O vídeo completo com a mensagem do General Charlie Duke, legendado em português, está disponível nas nossas redes sociais. Instagram: Assista aqui! e X (Twitter): Assista aqui!

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Este artigo só foi possível graças ao General Charles M. Duke Jr., que gravou uma mensagem inédita para os leitores brasileiros do Aero The Times em agosto de 2026, e a Dorothy Duke, pela generosidade e pela intermediação do contato. É uma honra levar esta história ao público do Brasil.

Fontes: mensagem em vídeo gravada pelo General Charles M. Duke Jr. para o Aero The Times, agosto de 2026; biografia oficial da NASA; Notable Graduates, United States Naval Academy; Astronaut Scholarship Foundation; site oficial de Charlie Duke.

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