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O Dragão e o Raio: A saga dos caças suecos da Guerra Fria que agora terão casa no Brasil

Foto: The Saab-Scania Story 1987

Antes de virarem peças de museu em São Paulo, o Saab 35 Draken e o Saab 37 Viggen escreveram alguns dos capítulos mais surpreendentes da aviação militar do século XX.

Em 29 de Junho de 1987, sobre o Mar Báltico, o motor direito de um SR-71 Blackbird explodiu. O avião voava a Mach 3.0 e a cerca de 22 mil metros de altitude quando a pane obrigou a tripulação a reduzir drasticamente a velocidade e descer para aproximadamente 7.600 metros, perto do espaço aéreo sueco. De repente, o avião-espião mais rápido já construído virou um alvo lento e vulnerável. Do outro lado da Cortina de Ferro, radares soviéticos detectaram a anomalia e, segundo relatos, chegaram a lançar cerca de 20 caças, incluindo MIG-25, para interceptar o americano em apuros. Quem chegou primeiro, porém, foram quatro caças Saab 37 Viggen da Força Aérea Sueca. Ao avistarem a aeronave claramente em dificuldades, os pilotos decidiram escoltá-la e protegê-la, e a acompanharam até que ela pousasse em segurança na então Alemanha Ocidental.

O SR-71 do episódio com o registro 61-7964 – Foto: Lockheed via habu.org

Decolagem e Pouso do Viggen – Vídeo: dogulasdc3 via Youtube:

Combat Control Center – Foto: The Saab-Scania Story 1987 via archive.org

Esse mesmo Viggen e seu antecessor, o Saab 35 Draken, vão agora atravessar o Atlântico para um destino bem mais tranquilo. Doados pela fabricante sueca Saab, a mesma que produz os caças F-39E Gripen da Força Aérea Brasileira, os dois jatos vão integrar o acervo do futuro Museu Aeroespacial Paulista (MAPA), no Campo de Marte, em São Paulo. Mais do que duas aeronaves antigas, o MAPA vai receber dois monumentos de uma filosofia de defesa única no mundo.

Para entender o Draken e o Viggen, é preciso entender a Suécia da Guerra Fria: um país pequeno, neutro e determinado a se defender sozinho, sem depender de potências estrangeiras. Dessa obsessão por autossuficiência nasceu uma engenharia ousada, capaz de projetar caças que decolavam de trechos de estrada, eram rearmados e reabastecidos em poucos minutos por recrutas com pouco treinamento e se espalhavam por bases dispersas para sobreviver a um eventual ataque. O resultado foram aviões que fugiam de qualquer manual convencional.

O Draken, cujo nome significa “dragão” em sueco, foi o primeiro capítulo dessa história. Sua asa de duplo delta era tão incomum para a época que a Saab precisou construir um avião experimental em escala reduzida, o Saab 210, apelidado de “Lilldraken”, que realizou cerca de mil voos de teste para validar o conceito. Deu certo. Quando entrou em serviço, em 8 de Março de 1960, o Draken se tornou o primeiro caça totalmente supersônico projetado e construído na Europa Ocidental a operar, além do primeiro a superar Mach 2 em voo nivelado. E guardava uma surpresa: durante os testes, os pilotos descobriram que a aeronave conseguia empinar bruscamente o nariz muito além do limite convencional sem entrar em estol, executando um movimento parecido com a manobra “Cobra” décadas antes de o Su-27 russo torná-la famosa nos anos 1980. Voando pela primeira vez em 25 de Outubro de 1955, o Draken serviu por mais de quatro décadas e foi exportado para Dinamarca, Finlândia e Áustria, que o manteve em operação até 2005.

Linha de Produção do Draken – Foto: The Saab-Scania Story 1987 via archive.org
Draken – Foto: The Saab-Scania Story 1987 via archive.org
Draken – Foto: The Saab-Scania Story 1987 via archive.org

Se o Draken já era ousado, o Viggen levou a engenharia sueca a outro patamar. Apresentado em 8 de Fevereiro de 1967, ele trazia no nome uma referência a um raio, e o desempenho fazia jus à imagem. Foi o primeiro caça de produção em série do mundo equipado com reversor de empuxo, um recurso que encurtava o pouso e permitia algo inusitado para um jato militar: taxiar de ré no solo, como um carro. Também foi o primeiro avião canard produzido em larga escala e um dos primeiros a embarcar um computador digital de bordo baseado em circuitos integrados, tecnologia bem à frente de seus concorrentes na Europa. Projetado para operar a partir de estradas comuns, longe das bases principais, ele encarnava por completo a doutrina sueca de dispersão.

E foi justamente o Viggen o protagonista daquele episódio de 1987. A Força Aérea Sueca havia treinado exaustivamente uma unidade para interceptar os SR-71 que cruzavam o Báltico em uma rota tão previsível que os próprios suecos apelidaram de “Baltic Express”. Ainda que o Viggen não alcançasse normalmente a altitude do Blackbird, ele se tornou o único caça estrangeiro a conseguir um travamento de mísseis sobre o lendário avião-espião americano. O desfecho da missão de resgate permaneceu confidencial por três décadas. Só em 28 de Novembro de 2018, em Estocolmo, a Força Aérea dos Estados Unidos condecorou quatro pilotos suecos com a Air Medal pela ação de 1987.

Viggen – Foto: The Saab-Scania Story 1987 via archive.org
Viggen – Foto: The Saab-Scania Story 1987 via archive.org

A chegada dos dois caças ao Brasil tem um simbolismo especial. Draken, Viggen e Gripen formam uma linhagem direta da Saab, e o Gripen é hoje o caça de linha de frente da própria Força Aérea Brasileira. Ao reunir esse trio, o MAPA passará a contar quase toda a evolução da engenharia sueca em um só lugar, algo que pouquíssimos museus no mundo conseguem oferecer. Para o público brasileiro, será a chance de ver de perto as origens da tecnologia que hoje voa nos céus do país.

Primeiro Protótipo do Gripen – Foto: The Saab-Scania Story 1987 via archive.org

Dois caças que quase nunca dispararam contra um inimigo, mas que ajudaram a reescrever o que era possível na aviação de combate, vão finalmente descansar sob o sol de São Paulo. Quando o Museu Aeroespacial Paulista abrir as portas, o dragão e o raio estarão lá, prontos para contar suas histórias.

Acompanhe a Aero The Times para saber tudo sobre o MAPA e as próximas lendas que vão pousar no Campo de Marte.

Fonte: Cavok Brasil, com informações históricas da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e da Saab.

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