Foto: NASA
Exemplar de cauda 844, o último Blackbird a voar, foi retirado da exibição em Edwards e passa por inspeção; agência ainda não confirma o projeto
A NASA teria iniciado um projeto discreto para recolocar em condição de voo um Lockheed SR-71A Blackbird, quase 27 anos após o último voo de uma aeronave do tipo. A informação foi publicada pela revista Aviation Week em 29 de setembro, com base em imagens de satélite e em relatos de ex-integrantes do programa.
O que já pode ser considerado confirmado é a movimentação física da aeronave. O SR-71A de cauda 844, que permanecia exposto em um pedestal no Armstrong Flight Research Center, na Base Aérea de Edwards, na Califórnia, foi retirado do local no início de 2026. Imagens comerciais de satélite obtidas pela publicação mostram que o avião já não estava no pedestal em 17 de maio, e possivelmente antes de abril. Segundo ex-funcionários, ele foi levado ao hangar que abrigava o ônibus espacial em Edwards, onde passou por inspeção, e em agosto já havia equipes trabalhando na aeronave.
A Aviation Week também confirmou que a agência procurou ex-engenheiros de ensaios do SR-71A, entre eles Mike Relja e Tim Conners, com propostas de trabalho para o projeto de retorno ao voo. Os convites partiram de David Ash, ex-piloto de testes da Marinha dos Estados Unidos e da Joby, contratado pela NASA em junho como diretor de projetos especiais. Relja, com quase 80 anos, recusou por causa da idade, e Conners também declinou, embora ambos tenham dito torcer pelo sucesso da iniciativa. Não há informação pública sobre quais profissionais aceitaram integrar a equipe.

A primeira pista pública surgiu no All-In Summit, realizado em Los Angeles entre 12 e 14 de setembro. O administrador da NASA, Jared Isaacman, exibiu a silhueta de um novo X-plane com traços que lembram de imediato o Blackbird, como as derivas inclinadas para dentro e as naceles dos motores posicionadas no meio das asas. Na ocasião, afirmou que a agência está reconstruindo sua frota de aeronaves experimentais para voltar a voar tão alto e tão rápido quanto em décadas passadas. Procurada, a NASA disse reconhecer o interesse pelo SR-71, mas informou não ter dados adicionais a compartilhar e não confirmou a existência do projeto.
O 844 não é um Blackbird qualquer. Foi o último SR-71A produzido e realizou o último voo de toda a família, em 9 de outubro de 1999, durante o open house da Base de Edwards. A aeronave chegou ao então Dryden Flight Research Center em 1990 e foi usada pela NASA como plataforma de pesquisa em alta velocidade e grande altitude, incluindo o experimento LASRE, de testes com motor aerospike linear, conduzido em parceria com a Rocketdyne e a Lockheed Martin.

Custos, cronograma e até o objetivo final do programa seguem no campo da especulação. Não está claro se a meta é voltar a voar com o próprio 844 ou utilizá-lo como base de estudos para um novo demonstrador. Os desafios apontados pelos ex-engenheiros são consideráveis: a célula tem 59 anos e passou quase três décadas ao ar livre, com risco de acúmulo de água e areia em cavidades internas, e os motores J58 instalados, além de um reserva mantido junto à aeronave, provavelmente não foram lubrificados nem girados desde 1999. Em 2007, a Força Aérea dos Estados Unidos e a NASA destruíram um estoque de peças de reposição avaliado em US$ 600 milhões, e o equipamento de solo específico do Blackbird, como os carrinhos para remoção de motores e de assentos ejetáveis, também deixou de existir. A operação exigiria ainda a retomada do fornecimento do combustível JP-7, do trietilborano usado na ignição e dos fluidos hidráulicos e lubrificantes próprios do modelo.
Há, porém, caminhos possíveis. Conners lembra que dezenas de Blackbirds estão preservados em museus nos Estados Unidos e no Reino Unido, alguns com os motores originais, o que permitiria aproveitar componentes. Ele destaca também que os manuais operacionais da Lockheed ainda existem e que a arquitetura de sistemas do avião foi concebida para ser a mais simples possível. Relja, mesmo cético, não descarta a empreitada: “Se você tiver muito dinheiro, talvez consiga fazer acontecer.”
Caso o projeto se concretize, será o primeiro voo de um SR-71 em mais de 27 anos e o retorno aos céus de um ícone da Guerra Fria que ainda detém o recorde de velocidade para aeronaves tripuladas com motores a reação aspirados.
Fonte: Aviation Week, reportagem publicada em 29 de setembro de 2026.





